Brasil avança em norma para projeto estrutural em UHPC

Após a publicação da ABNT NBR 17246, país trabalha em norma específica para dimensionamento estrutural com UHPC

Em julho de 2025, foi publicado um conjunto de quatro normas voltadas ao concreto de ultra alto desempenho (UHPC): ABNT NBR 17246 – partes 1 a 4. Agora, a Comissão de Estudo Estruturas de Concreto de Ultra Alto Desempenho em Edificações (CE-002:124.029), vinculada ao Comitê Brasileiro da Construção Civil (ABNT/CB-002), trabalha na elaboração da norma brasileira para projeto estrutural em UHPC.

Segundo a professora Ana Elisabete Jacintho, cerca de 75% dos estudos já foram concluídos, e a expectativa é que o texto seja encaminhado para consulta pública até o final de 2026.

De acordo com ela, a futura norma brasileira irá adaptar ao contexto nacional as recomendações da Associação Francesa de Normalização (AFNOR), presentes na NF P18-710, que trata do projeto estrutural em concreto armado e protendido com UHPC.

“Esta norma pretende dar respaldo à industrialização de pré-fabricados em UHPC, permitindo a fabricação de peças mais esbeltas e mais resistentes, que podem ser utilizadas em diversas frentes de trabalho”, afirma Ana Elisabete.

Um dos avanços previstos é a incorporação explícita da resistência residual à tração do UHPC reforçado com fibras no dimensionamento estrutural.

“A resistência pós-fissuração do UHPC é muito importante para o dimensionamento dos elementos estruturais, e a forma de consideração dessa resistência estará explícita na norma de projetos”, explica.

Apesar do avanço, ainda existem lacunas de pesquisa. Entre elas está o comportamento do UHPC em situações de incêndio, tema que ainda demanda mais estudos.

Comportamento estrutural do UHPC com fibras

Segundo Ana Elisabete, o comportamento estrutural do UHPC com fibras apresenta diferenças relevantes em relação ao concreto convencional, especialmente em alguns aspectos:

  • Ultra alta resistência à compressão e deformação limite associada à resistência à tração e à orientação das fibras;
  • Definição de classes de comportamento do UHPC em função da ductilidade, considerando os regimes softening e hardening após a fissuração;
  • Consideração da resistência à tração do UHPC no dimensionamento à flexão e ao cisalhamento;
  • Contribuição das fibras na resistência ao cisalhamento dos elementos estruturais.

ABNT NBR 17246

Publicada em julho de 2025, a ABNT NBR 17246 é composta por quatro partes que tratam especificamente do material UHPC.

Texto da norma brasileira para projeto estrutural em UHPC deverá ser encaminhado para consulta pública até o final de 2026. Crédito: Envato

“A parte 1 aborda a classificação, os requisitos e a especificação do material. A parte 2 define os procedimentos para validação de dosagens e de produção, enquanto a parte 3 estabelece os protocolos de controle de qualidade. Já a parte 4 apresenta os métodos de ensaio para caracterização do material”, explica Renata Monte, professora doutora do Departamento de Engenharia de construção Civil da Escola Politécnica da USP.

Para a elaboração do conjunto de normas, foram consultadas diversas referências normativas e bibliográficas internacionais.

“A normalização francesa (AFNOR) serviu de base para muitos desenvolvimentos internacionais, incluindo a norma brasileira. A experiência francesa na fabricação do material (Ductal®) e os projetos já realizados foram muito importantes para o avanço da tecnologia”, destaca Renata.

Em relação aos ensaios, ela explica que os protocolos para testes mais simples, como resistência à compressão e módulo de elasticidade, não diferem significativamente dos aplicados ao concreto convencional. No entanto, a capacidade de carga exigida para os equipamentos é maior.

“Isso pode ser um gargalo para alguns laboratórios de controle tecnológico. Além disso, como o UHPC costuma utilizar fibras para atingir resistência à tração, são necessários ensaios específicos, como os de flexão com determinação da resistência residual pós-fissuração”, afirma.

Apesar disso, Renata observa que parte do setor já vem se preparando para essa demanda.

“Alguns laboratórios já estão buscando essa capacitação desde a publicação, em 2021, das normas brasileiras para concreto com fibras.”

Na avaliação de Renata, a existência de normas técnicas não necessariamente acelera o uso da tecnologia, mas traz segurança para sua aplicação quando houver viabilidade técnica e econômica.

“Além disso, a existência de normas nacionais contribui para ampliar a divulgação da tecnologia no meio técnico”, conclui Renata.

Entrevistadas

Ana Elisabete Jacintho é professora em Dedicação Integral da PUC Campinas e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana. Possui pós-doutorado pela Universidade de São Paulo – Escola Politécnica, mestrado e doutorado em Engenharia de Estruturas pela Universidade de São Paulo – Escola de Engenharia de São Carlos e graduação em Engenharia Civil pela Fundação Educacional de Barretos. Participa do grupo de trabalho ABECE/IBRACON sobre concreto de ultra alto desempenho (UHPC) e coordena o Comitê de Estudos da ABNT sobre o tema. 

Renata Monte é engenheira civil formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, possui mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo, além de formação também em Construção de Edifícios e Matemática. É professora do Departamento de Engenharia Civil da Escola Politécnica da USP e integra a equipe de pesquisadores da Unidade EMBRAPII – Materiais para Construção Ecoeficiente. Membro dos comitês técnicos internacionais da RILEM relacionados a materiais cimentícios avançados. Coordenou a Comissão de Estudos de Concreto Reforçado com Fibras e atualmente coordena a Comissão de Estudo de Concreto de Alta e Ultra-alta Resistência, ambas da ABNT.

Contato

anajacintho@puc-campinas.edu.br.

renata.monte@usp.br

Jornalista responsável: 
Marina Pastore – DRT 48378/SP 
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