Mercado imobiliário no Brasil enfrenta escassez de mão de obra

Redução da escala 6x1 também deve impactar a disponibilidade de trabalhadores e cronogramas das construções

No quarto trimestre de 2025, o mercado imobiliário brasileiro atingiu níveis históricos em lançamentos, vendas, valor geral de lançamentos (VGL) e na oferta de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, segundo a pesquisa Indicadores Imobiliários Nacionais da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). O período registrou alta de 18,6% em relação ao trimestre anterior, com 133.811 unidades lançadas, enquanto no acumulado de 12 meses o crescimento foi de 10,6%, totalizando 453.005 unidades. O VGL alcançou R$ 292,3 bilhões em 2025, também um recorde e 10,6% acima de 2024. Além disso, houve avanço de 5,4% nas vendas e de 6,2% na oferta final de imóveis, que cresceu 8% em um ano, encerrando 2025 com 347.013 unidades disponíveis.

Paralelamente, o mais recente Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), aponta que a construção civil deverá demandar mais de 4,4 milhões de profissionais até 2027. Já o Índice de Confiança da Construção (ICST), divulgado pelo FGV IBRE em fevereiro de 2026, indica que os empresários do setor seguem enfrentando entraves na contratação de mão de obra qualificada. No período, 41,6% dos entrevistados afirmaram que a escassez de profissionais tem limitado o avanço de seus negócios — o maior percentual registrado para um mês de fevereiro desde 2011.

A economista do FGV Ibre, Ana Maria Castelo, alertou para um gargalo estrutural  que deve se intensificar em 2026: a escassez de mão de obra qualificada. A sondagem da FGV Ibre mostra que a limitação relacionada ao mercado de trabalho segue como uma das principais restrições ao avanço dos negócios no setor.

“Se a atividade voltar a acelerar, a pressão sobre o mercado de trabalho será ainda maior. Esse é o grande desafio para sustentar o crescimento nos próximos anos”, avalia.

Para Gustavo Selig, CEO do Grupo Hestia, a escassez de mão de obra já não é uma preocupação futura, mas um desafio concreto nas obras. “Em alguns casos ainda conseguimos administrar a situação, mas já existe impacto real nos cronogramas. Muitas vezes não conseguimos formar equipes completas para determinadas etapas da obra. Quando falta um profissional especializado, o ritmo da construção diminui e o cronograma se estende”, explica.

Para David Fratel, diretor de Gente do SindusCon-SP, a redução da jornada deve ser o destino final de um processo estruturado, e não o ponto de partida.
Crédito: Envato

O impacto nos custos também é significativo. “O aumento do custo da mão de obra pesa muito porque, proporcionalmente, foi bem maior do que o aumento dos materiais. Como a construção civil trabalha com margens apertadas, esse crescimento pressiona a viabilidade dos projetos. As empresas tentam absorver parte desses aumentos com eficiência e melhor gestão, mas existe um limite. Na prática, parte desse custo acaba sendo repassada ao preço final dos imóveis para manter a sustentabilidade dos empreendimentos”, alerta Selig.

Escassez de profissionais e falta de qualificação

Segundo Selig, o setor enfrenta dois problemas simultâneos: “Existe uma escassez de profissionais no mercado, mas também uma grande dificuldade em encontrar trabalhadores com qualificação técnica adequada. Não é apenas falta de gente; muitas vezes é falta de preparo para as novas demandas da construção”.

Ele lembra que, nos últimos anos, houve um afastamento das novas gerações do trabalho no canteiro de obras. “Muitos jovens não enxergam a construção civil como uma carreira atrativa, principalmente no modelo tradicional. Ao mesmo tempo, o setor passa por transformação tecnológica que exige profissionais mais preparados”.

Para enfrentar esse cenário, as construtoras investem em formação interna, programas de capacitação e parcerias com instituições como o SENAI. “A ideia é formar profissionais que o próprio mercado hoje não consegue entregar. A retenção também virou prioridade. Empresas estruturam melhor planos de carreira, investem em segurança, melhores condições de trabalho e benefícios. Hoje, valorizar o profissional é essencial para manter equipes qualificadas”, afirma Selig.

Tecnologia e industrialização como saída

A tecnologia surge como uma resposta estratégica para a escassez de mão de obra. “A construção civil está passando por modernização, incluindo digitalização da gestão das obras e industrialização dos processos construtivos. Sistemas mais industrializados, como pré-fabricados, steel frame e construção modular, transferem parte do trabalho do canteiro para ambientes industriais. Isso aumenta a produtividade, melhora o controle de qualidade e reduz a necessidade de mão de obra intensiva no local da obra”, explica Selig.

Ele complementa: “Ferramentas de planejamento e gestão, como BIM e aplicativos de acompanhamento de obra, permitem organizar melhor os processos, reduzir retrabalho e melhorar logística. Equipes menores conseguem produzir mais, com eficiência e menos desperdício”.

Redução da jornada 6×1 e produtividade

A discussão sobre a redução da escala 6×1 no setor da construção civil é delicada. “Em um cenário de dificuldade para encontrar profissionais, qualquer redução de jornada sem aumento de produtividade impacta diretamente os custos da construção. Menos horas trabalhadas significam a necessidade de contratar mais pessoas, que muitas vezes não estão disponíveis. Além disso, há preocupação com o custo da hora trabalhada. Se a jornada diminui e a produtividade não cresce na mesma proporção, o custo da obra tende a subir. É um tema que precisa ser discutido com muito cuidado”, afirma Selig.

Para David Fratel, diretor de Gente do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), a redução da jornada deve ser o destino final de um processo estruturado, e não o ponto de partida. “A melhor sequência sustentável é: (1) Qualificação, (2) Industrialização, (3) Produtividade e (4) Ganhos Reais de Entrega. Só após esses degraus a redução de jornada se torna viável. Inverter essa lógica gera ineficiência técnica e aumento direto de custos”, alerta Fratel.

Ele detalha que o SindusCon-SP já trabalha para melhorar a produtividade do setor por meio de Trilhas de Carreira Profissional com certificações, industrialização liderada pelos comitês COI e CCI, produtividade debatida no CTQ, segurança jurídica e contratação de jovens-aprendizes geridas pelo Conselho Jurídico. “É um trabalho estruturado para garantir resultados sólidos e irreversíveis”, comenta Fratel.

Fratel ainda reforça: “Propomos revisão da incidência de encargos sociais e a implementação de remuneração por produtividade. Reduzir jornada sem ganho de eficiência apenas transforma horas produtivas em encargos adicionais. A necessidade de um trabalho gradual e estruturado é central no nosso Grupo de Trabalho de Recursos Humanos (GTRH)”.

Selig comenta que muitas empresas investem cada vez mais em tecnologia, planejamento e industrialização para aumentar a produtividade. “A ideia é tornar a obra menos dependente do esforço manual e mais baseada em processos organizados, montagem técnica e sistemas construtivos eficientes. Esse caminho ajuda o setor a se adaptar a mudanças futuras nas relações de trabalho”, conclui.

Fontes

Gustavo Selig é engenheiro civil graduado pela PUC-PR, com Mestrado em Administração de Empresas e Negócios pela FGV-PR. Cofundador e presidente do Grupo Hestia, atua há mais de 30 anos no mercado imobiliário paranaense, liderando projetos que unem tradição, inovação e propósito.

Foi representante do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) no Ippuc e presidiu a Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi/PR) por três gestões consecutivas.

David Fratel é diretor de Gente do SindusCon-SP.

Contatos

gustavo.selig@grupohestia.com.br

rmontagnini@sindusconsp.com.br

Jornalista responsável: 
Marina Pastore – DRT 48378/SP 
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