Cadeia da construção acelera ajustes para cumprir metas de descarbonização
Articulação entre empresas, universidades e políticas públicas possibilita avanço no desenvolvimento de materiais, processos e métricas para reduzir a pegada de carbono
A descarbonização deixou de ser um debate prospectivo e passou a orientar decisões concretas ao longo da cadeia da construção civil. Alinhados por compromissos ambientais, regulação crescente e exigências de financiamento, fabricantes de materiais, construtoras, projetistas e instituições de pesquisa vêm reorganizando processos produtivos e critérios de especificação para reduzir emissões de CO₂ sem comprometer desempenho e durabilidade.
Segundo a engenheira Edna Possan, professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), o movimento precisa ser analisado de forma sistêmica. “A combinação dos materiais é que vai nos levar ao processo de descarbonização. Cada material tem o seu melhor lugar de uso, desde que se conheça o seu comportamento em uso e o carbono associado”, afirma.
Indústrias de base revisam processos produtivos

Crédito: Envato
Os setores cimenteiro e siderúrgico estão entre os mais mobilizados para reduzir as emissões. No caso do cimento, o Brasil parte de uma posição relativamente favorável. “O cimento brasileiro está entre os de menor emissão de carbono do mundo, com algo em torno de 550 a 600 quilos de CO₂ por tonelada, mesmo assim é um valor elevado quando olhamos para as metas globais de carbono neutro”, explica Edna.
A estratégia adotada envolve tanto a redução do teor de clínquer quanto o desenvolvimento de novos ligantes e compósitos. “Nosso grupo de pesquisa conseguiu desenvolver cimentos com até 60% menos dióxido de carbono em relação ao convencional a partir de resíduos da construção, com forte engenharia de processo e de materiais”, relata a pesquisadora.
Tecnologia e ciência como vetores de mudança
Para Edna Possan, o avanço da descarbonização está diretamente ligado ao investimento em tecnologia e inovação. “Eu acredito que a tecnologia nos trouxe até aqui e ela vai nos permitir permanecer neste mundo que precisa ser descarbonizado. Isso exige parceria entre universidades, empresas, poder público e terceiro setor”, destaca.
Essa lógica tem orientado o desenvolvimento de materiais de baixo carbono, que precisam atender simultaneamente a dois critérios. “As novas tecnologias precisam reduzir o dióxido de carbono incorporado e, ao mesmo tempo, manter desempenho e durabilidade. Não faz sentido reduzir emissão se a vida útil da edificação for comprometida”, afirma.
No concreto, esse equilíbrio passa por dosagens mais eficientes, uso de cimentos menos emissivos, fillers minerais e aditivos químicos avançados. “Hoje, o concreto no Brasil pode variar de forma muito significativa em quilos de CO₂ por megapascal de resistência, dependendo da mistura. Isso mostra o quanto o conhecimento técnico ainda é decisivo”, observa.
Metas chegam ao mercado e ao financiamento

Crédito: Arquivo pessoal
O movimento da cadeia ganha força adicional com a entrada de instrumentos de política pública. Um exemplo é a plataforma BIPC (Benchmark Iterativo para Projetos de Baixo Carbono), lançada pela Caixa Econômica Federal, voltada ao mercado imobiliário financiado com recursos públicos. “Tem-se a perspectiva de que, nos próximos anos, quem for produzir habitação com financiamento público terá que apresentar inventário de carbono e de energia das construções e isso já é uma exigência internacional e que no BIPc passa também a ser uma norma”, explica Edna.
A plataforma se conecta a ferramentas de avaliação do ciclo de vida, como o Sistema de Informação do Desempenho Ambiental da Construção (Sidac), que permitem calcular emissões associadas a materiais e sistemas construtivos. Esse avanço impõe uma mudança cultural no setor. “Engenheiros, arquitetos e especificadores vão precisar conhecer não apenas as propriedades mecânicas e estéticas dos materiais, mas também a energia e o carbono incorporados”, afirma.
Novo paradigma para toda a cadeia
Na avaliação da pesquisadora, a descarbonização não será alcançada por uma única solução tecnológica, mas pela soma de ajustes ao longo de toda a cadeia. Concreteiras, por exemplo, terão de aprender a dosar concretos de baixo carbono mantendo desempenho, enquanto projetistas poderão contribuir com otimização estrutural e escolhas mais eficientes de sistemas. “O setor inteiro está sendo chamado a reaprender. Assim como hoje olhamos o rótulo de um alimento para saber suas calorias, em breve os materiais de construção terão tabelas claras de carbono e energia”, conclui Edna.
Entrevistada
Edna Possan é engenheira civil formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) e doutora em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora titular na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e coordenadora do Laboratório de Desempenho, Estruturas e Materiais (Ladema). Atualmente é membro de diversos comitês de estudos de normas relacionadas a construção civil e presidente da Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (Antac). Atua na área de patologia das construções, materiais de construção e meio ambiente.
Contato
edna.possan@unila.edu.br
Jornalista responsável
Ana Carvalho
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