Sistema construtivo, já enraizado na cultura brasileira, estará à frente da maioria das construções do programa habitacional

Professor Francisco Ferreira Cardoso: no Minha Casa, Minha Vida não há espaço para Professor Pardal
O lançamento do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida trouxe à tona uma série de processos construtivos. Alguns deles, miraculosos, prometem erguer casas populares em até um dia. Não que eles não possam ser cumpridos, mas para comprovar a capacidade inovadora precisam da aprovação do PBQP-H (Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat), ligado ao Ministério das Cidades, e ser submetidos ao SINAT (Sistema Nacional de Aprovação Técnica de Produtos Inovadores).
São estes mecanismos oficiais que validam soluções inovadoras para a construção habitacional. É a partir deles que a Caixa Econômica Federal decide ou não liberar o financiamento para que estes sistemas construtivos integrem o Minha Casa, Minha Vida. São levados em conta itens como desempenho, durabilidade, conforto, segurança e sustentabilidade. Dentro deste cenário, o professor Francisco Ferreira Cardoso, da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), e que também faz parte do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, avalia que o programa vai privilegiar métodos tradicionais, com a alvenaria. “Não haverá Professor Pardal na construção das casas”, afirma.
A alvenaria, seja utilizando tijolos ou blocos de concreto, é, por excelência, o processo construtivo já enraizado na cultura brasileira, avalia Francisco Cardoso. “É a maneira brasileira de construir. Foi trazida pelos portugueses e é a que o brasileiro confia. Então, presumo, haverá pouco espaço no Minha Casa, Minha Vida para sistemas muito inovadores ou importados”, diz. O especialista considera que apenas os processos que permitam a industrialização, como os pré-fabricados e os sistemas com paredes de concreto feitos com fôrmas, devem competir com a alvenaria. “Como são sistemas que pressupõem valor agregado e velocidade da produção da obra também devem ser bem usados no programa”, completa.
O professor da USP analisa, porém, que, independentemente do sistema construtivo, é crucial que a que habitação a ser construída leve em consideração a questão do conforto termoacústico. “Essa é uma questão essencial, junto com a durabilidade e com a segurança estrutural. Não se pode sacrificar isso. Não se pode, em nome de uma possível inovação que reduza custos ou acelere prazos, pôr em risco o conforto e a segurança. Além disso, a sustentabilidade é outra questão essencial para o sucesso do Minha Casa, Minha Vida”, diz.
Para padronizar a qualidade das obras a serem erguidas em todo o Brasil, e levando em consideração as diferenças regionais, o IPT e Politécnica estão propondo a criação de um código de construção. Sua missão seria pegar as práticas tradicionais da alvenaria e combina-las para criar um padrão único. “O que sugerimos são boas práticas de construção. Não que estejamos questionando as tecnologias, mas sinalizando, por exemplo, que se adotem critérios na contratação de profissionais do setor, sejam engenheiros, arquitetos ou operários. Se eles tiverem uma base parecida, as diferenças nas construções serão pequenas”, prevê Francisco Cardoso.
Processo construtivo ideal é aquele que:
* Tem bom desempenho (durabilidade ao longo da vida útil da construção).
* Oferece segurança e conforto ao usuário.
* Preserva a saúde dos moradores.
Regras básicas na compra de uma habitação do Minha Casa, Minha Vida:
* Financiamento condizente com renda mensal.
* Localização.
* Potencial para receber melhorias.
* Capacidade de permitir a expansão da família.
* Luminosidade.
* Fazer uma compra racional e não emocional.
Entrevistado: Francisco Ferreira Cardoso: francisco.cardoso@poli.usp.br
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O que deduz o Professor Francisco Cardoso infelizmente é realidade da produção de habitações no Brasil, notadamente aquelas destinadas a baixa renda.
Lamentável porém é a falta de iniciativa e falta de incentivo à inovação com técnicas construtivas racionalizadas e industrializadas.
Há que se lembrar que no final dos anos 70 e início dos anos 80, quando o país viveu um momento especial na construção habitacional popular, ocasião em que em pouco mais de 3 anos produziram-se cerca de 4 milhões de unidades habitacionais. Ocasião esta que o extinto BNH percebendo as dificuldades inerentes a este esforço, aliada a grande falta de materiais em geral e alto desperdício incentivou as empresas do setor a desenvolver e buscar tecnologias construtivas, mais modernas, mais rápidas, mais eficientes e produtivas , também visando a redução de custos e do desperdício.
Ainda existe no Brasil um ranço no que tange a industrialização da construção civil, notadamente no setor habitacional, amplamente patrocinada por acadêmicos, empresas que atuam no setor (na condição de uma pseudo-reserva de mercado) e dos agentes financeiros em geral.
Ocorre que os recursos naturais vêm sendo desperdiçados em larga escala, por conta da adoção de uma tecnologia construtiva arcaica. Madeira, areia, água, argila e minérios utilizados na construção são extraídos em grande quantidade para transforma-se em matéria prima das obras que posteriormente vão gerar volumes absurdos de entulho, gerando graves problemas ambientais desde a extração até o descarte, sem contabilizar o custo econômico envolvido.
Há que se lembrar que outros povos do planeta, notadamente na Europa e Ásia no esforço de recompor sua infraestrutura em função da destruição provocada por guerras e cataclismos, quando tiveram que reconstruir suas edificações, o fizeram invariavelmente com técnicas construtivas industrializadas, incentivando o surgimento de técnicas construtivas inovadoras, econômicas e mais recentemente sustentáveis.
O caso da Europa é especialmente relevante por tratar-se da base cultural de nosso país, cujas técnicas construtivas industrializadas em 20 anos reconstruíram mais de 40 milhões de unidades habitacionais. O comitê executivo do Plano Marshal (Europa Ocidental) calculava que para reconstruir em alvenaria as unidades habitacionais destruídas na guerra levaria em torno de 200 anos, daí a opção pela construção industrializada. Calculavam então produzir em 40 anos o que na prática realizaram em 20 anos.
Esta realidade é muito próxima do Brasil, pois além dos traços culturais a apropriação tecnológica da engenharia nacional tem como base as técnicas construtivas européias e norte-americanas.
Pelo exposto é lamentável que ainda se divulguem opiniões técnicas pejorativas a respeito da validade das técnicas construtivas industrializadas as quais dispões de soluções experimentadas a mais de 30 anos, que contemplam o desempenho, a segurança, a durabilidade, a versatilidade na adaptação regional, o conforto e a economia tudo isso com sustentabilidade e profissionalismo.