Falta de engenharia pública gera desperdício

Engenheiros civis: no passado, primordiais ao poder público; agora, trocados por economistas.

Falta de engenharia pública gera desperdício

Falta de engenharia pública gera desperdício 1024 687 Cimento Itambé

Governos pouco investiram em profissionais e agora sentem dificuldade para planejar, licitar e fiscalizar obras, seja na esfera federal, estadual ou municipal

Por: Altair Santos

Em 27 de agosto de 2012, o jornal Folha de S. Paulo publicou o artigo intitulado “Onde estão nossos engenheiros?”. Nele, o ex-ministro, e hoje professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, Luiz Carlos Bresser Pereira ataca o problema de frente. “Faltam engenheiros no Estado brasileiro. Há advogados e economistas de sobra, mas faltam dramaticamente engenheiros. Enquanto mais de 80% da alta burocracia chinesa é formada por engenheiros, no Brasil não devem somar nem mesmo 10%. Ora, se há uma profissão que é fundamental para o desenvolvimento, tanto no setor privado quanto no governo, é a engenharia”, analisa.

Engenheiros civis: no passado, primordiais ao poder público; agora, trocados por economistas.

Para o presidente do Confea/Crea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia) José Tadeu da Silva, não é de hoje que essa carência se estabeleceu no poder público. “Vários fatores nos levaram a isso. Entre eles, a falta de investimentos, principalmente em infraestrutura, e os baixos índices de crescimento econômico e desenvolvimento social que caracterizaram o Brasil nas décadas de 1980 a 1990. Nesse período, as equipes técnicas dos governos federal, estadual e municipal foram desmontadas, com os profissionais deslocados para outros setores, mudando de função, e criou-se um vazio técnico. É diante dele que estamos agora”, afirma.

Em seu artigo, Luiz Carlos Bresser Pereira destaca que há quatro setores que formam um governo: jurídico, econômico, social e de engenharia. “Ninguém tem força para desmontar os dois primeiros; seria possível desmontar o setor social, mas, com a transição democrática e a Constituição de 1988, ele passara a ser prioritário. Restava o setor de engenharia – foi esse o setor que se desmontou”, escreveu. José Tadeu da Silva avalia que esse desmonte levará mais alguns anos para ser refeito. “Hoje não temos profissionais preparados em quantidade e qualidade. São necessários anos para formar um bom profissional“, destaca.

O presidente do Confea/Crea credita parte do desperdício que se vê com o dinheiro público a essa escassez de engenheiros em departamentos estratégicos dos governos, seja na esfera federal, estadual ou municipal. “Em geral, a demora na execução das obras públicas se deve à falta de um planejamento bem elaborado e à falta de projetos executivos detalhados que  proporcionem a preparação de um orçamento adequado. No Brasil, ao contrário do resto do mundo, dedica-se pouco tempo ao planejamento, o que, entre outras coisas, implica na demora da execução e na readequação dos custos”, alerta.

José Tadeu da Silva: governos desmontaram as equipes técnicas nos anos 1980 e 1990.

A pedido do governo federal, o Confea/Crea elaborou um plano de remontagem das equipes técnicas e sugeriu que seja dada prioridade à realização de concursos públicos para áreas estratégicas como Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte) e ministérios das Cidades, das Minas e Energia e do Planejamento, além da Petrobras. Outra proposta é que passe a ser colocada em prática a lei 11.888/2008, conhecida como lei da Engenharia Pública, no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida. Com isso, as famílias com renda de até três salários mínimos ganhariam assistência gratuita de engenheiros para reformar ou construir casas com até 60 m². “Isso evitaria desperdício de material, menos gastos, e um melhor aproveitamento do terreno”, finaliza José Tadeu da Silva.

Salário baixo

Pesquisa de 2009, encomendada pelos principais sindicatos de engenheiros do país ao Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos So­­cioeconômicos) revela que o salário baixo é outro empecilho para que os engenheiros civis atuem no serviço público. Segundo o levantamento, 84,4% dos profissionais que estavam no mercado formal há quatro anos ocupavam cargos em empresas privadas e apenas 15,6% estavam empregados em organismos de governo. Outro detalhe relevante é que, em 2009, 60% dos que desempenhavam a função de engenheiro no poder público, fosse nas esferas federal, estadual ou municipal, ganhavam menos do que os que estavam no setor privado.

Veja o que diz a lei 11.888/2008: clique aqui.

Leia íntegra do artigo de Luiz Carlos Bresser Pereira: clique aqui.

Entrevistado
José Tadeu da Silva, presidente do sistema Confea/Crea.
Currículo

– José Tadeu da Silva é engenheiro civil graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas-SP, em 1976. Também tem graduação em direito, pela Fundação Otávio Bastos, em 1992.
– Já presidiu a Federação das Associações de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo (FAEASP), o Crea-SP e atualmente preside a Federação Brasileira de Associações de Engenheiros (FEBRAE).
– É membro da União Panamericana das Associações de Engenheiros (UPADI), da Federação Mundial das Organizações de Engenharia (WFEO/FMOI) e do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape).
– Em 2011, foi eleito para o exercício da presidência do Confea, com mandato de 1º de janeiro de 2012 a 31 de dezembro de 2014.
Contato: presidente@confea.org.br
Créditos fotos: Divulgação/Confea

Jornalista responsável: Altair Santos – MTB 2330
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