Juros e crédito imobiliário serão decisivos para a construção em 2027
Ajuste fiscal e diversificação de fontes de financiamento serão fundamentais para sustentar o crescimento do setor
A trajetória dos juros, a disponibilidade de crédito imobiliário e o equilíbrio das contas públicas serão determinantes para o desempenho da construção civil em 2027. Com a redução das fontes tradicionais de financiamento e o elevado custo do dinheiro, o setor terá de ampliar sua participação no mercado de capitais para sustentar novos investimentos. A avaliação é do economista, diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco Safra e ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, durante a apresentação “Economia e construção: perspectivas para 2027”, promovida pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Segundo Levy, a economia brasileira não apresenta grandes desequilíbrios, mas precisa avançar no ajuste fiscal para permitir uma redução sustentável dos juros. O economista projeta crescimento de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 e destaca que a atividade doméstica permanece praticamente estagnada, enquanto as exportações sustentam parte do crescimento.
A inflação também preocupa. Segundo Levy, o choque nos preços do petróleo contribuiu para elevar a expectativa de inflação para 2026 de aproximadamente 3,7% a 3,8% para 4,8% a 4,9%. Além disso, o cenário fiscal dos Estados Unidos e as pressões sobre os juros internacionais podem limitar a margem de atuação da política monetária brasileira.
“Baixar a Selic não só é essencial para a sobrevivência das empresas, como vai ser um grande impulso para o setor privado brasileiro”, afirmou.
Redução do crédito direcionado desafia construção civil
Para Levy, um dos maiores desafios de 2027 será a redução estrutural do crédito direcionado, que durante anos sustentou investimentos em setores como infraestrutura, agronegócio e construção civil.
O economista destacou que as concessões de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), antes equivalentes a cerca de 4% do PIB, atualmente representam aproximadamente 1%. Além disso, dois terços dos empréstimos da instituição em 2025 foram concedidos a taxas de mercado.

Na construção civil, a limitação dos recursos da poupança e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) exige a diversificação das fontes de financiamento. Levy também mencionou a liberação de aproximadamente R$ 40 bilhões do Fundo Social, mas ressaltou o caráter temporário dessa alternativa.
“Não tem mais como as empresas, os setores, se apoiarem muito no crédito direcionado, crédito subsidiado. Você vai ter que ir para o mercado, taxa de mercado”, alertou.
Uma das alternativas é a securitização de créditos imobiliários, que permite transformar recebíveis em títulos negociados no mercado de capitais. Levy prevê que esse mecanismo terá participação crescente no financiamento habitacional.
“Daqui a dois anos, muito do crédito imobiliário vai ter que ser securitizado, assim como acontece na infraestrutura e na agricultura”, projetou.
O economista também defendeu a criação de mecanismos de garantia e seguros que ampliem a segurança dos investidores. Para ele, será necessário desenvolver uma nova estrutura financeira capaz de sustentar a expansão do crédito sem depender exclusivamente de recursos subsidiados.
Ajuste fiscal pode favorecer a queda dos juros
A redução dos juros é considerada fundamental para estimular a compra de imóveis, diminuir os custos financeiros das construtoras e viabilizar novos empreendimentos.
Levy defende uma trajetória fiscal de médio prazo, com medidas estruturais para conter o crescimento das despesas e elevar gradualmente o superávit primário. Segundo o economista, a meta seria alcançar resultado positivo próximo de 1,5% do PIB nos próximos três ou quatro anos.
Na projeção apresentada, o economista considera possível atingir uma Selic de 8% em 2028, acompanhada de crescimento econômico de 2,5% e inflação próxima de 3%.
“Eu quero Selic a 8% em 2028, com PIB crescendo 2,5% e uma inflação na casa de 3”, afirmou.
O custo do crédito também pesa sobre as famílias. Segundo Levy, embora o endividamento em relação à renda esteja próximo dos níveis registrados no final de 2022, as despesas com o pagamento das dívidas aumentaram, comprometendo a capacidade de consumo e de contratação de financiamentos imobiliários.
Mercado imobiliário busca alternativas de financiamento
Durante o encontro, Filipe Pontual, diretor executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), apresentou projeção de R$ 410 bilhões em crédito imobiliário em 2026, considerando recursos do FGTS e do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE).
Até agosto, os financiamentos com recursos do SBPE cresceram 37% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entretanto, a disponibilidade limitada da poupança tem levado os bancos a ampliar o uso de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e recursos livres.
Pontual alertou que as novas regras de financiamento, incluindo o limite de juros de 12% ao ano mais a Taxa Referencial (TR) para determinadas operações, podem restringir a oferta de crédito em um ambiente de taxas elevadas.
“Há um risco de uma redução do volume de financiamento imobiliário se os juros estiverem acima de 12%”, afirmou.
Reforma tributária pode favorecer industrialização
Além das condições financeiras, Levy destacou a reforma tributária como uma oportunidade para ampliar a industrialização da construção civil. Segundo o economista, o novo sistema poderá favorecer a produção de componentes fora do canteiro, com aproveitamento de créditos tributários.
“Para setores como a construção civil, a reforma é uma resposta muito importante, pois permitirá industrializar muitas das atividades, agora que haverá acesso ao crédito”, explicou.
Apesar dos desafios, Levy considera possível evitar uma recessão com medidas fiscais graduais e previsíveis. Levy também destacou o potencial de expansão da construção civil e da infraestrutura, com taxas de 4% a 5% ao ano, condicionado ao acesso a novas fontes de financiamento. “Esses setores vão precisar de crédito”, ressaltou.
Para 2027, o desafio da construção civil será conciliar a transição para novas fontes de financiamento com a redução dos juros e o aumento da produtividade, criando condições para sustentar investimentos e ampliar a atividade.
Fontes
Joaquim Levy é economista, diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco Safra e ex-ministro da Fazenda.
Filipe Pontual é diretor executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
Contato
imprensa@cbic.org.br
Jornalista responsável:
Marina Pastore – DRT 48378/SP
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