Amostragem correta: impacto da coleta e do preparo na confiabilidade dos resultados

Representatividade da amostra de concreto fresco é fundamental para que os resultados dos ensaios reflitam as características do material fornecido e subsidiem decisões técnicas confiáveis.

Resultados de resistência à compressão abaixo do fck especificado frequentemente levam à suspeita de falhas na produção ou no fornecimento do concreto. Entretanto, os desvios observados podem estar relacionados a etapas anteriores à realização do ensaio, como amostragem inadequada, moldagem incorreta dos corpos de prova, falhas no processo de cura, erros de rastreabilidade ou procedimentos inadequados durante o ensaio de compressão.

Na prática, é comum associar a qualidade do concreto apenas ao resultado de ruptura dos corpos de prova. No entanto, ela também está diretamente relacionada à forma como o concreto é coletado e preparado para as avaliações. Por isso, compreender os procedimentos de amostragem e os desvios mais comuns em campo é essencial para melhorar a qualidade dos resultados. 

A amostragem tem como objetivo obter uma porção de concreto fresco que represente, de maneira adequada, o material ao qual os resultados dos ensaios serão associados. Para isso, é necessário observar critérios de coleta, homogeneização, acondicionamento e tempo de execução dos procedimentos, reduzindo a possibilidade de interferências que comprometam as características da amostra.

A amostragem pode ser tonar uma etapa crítica do controle tecnológico

A amostra deve ser obtida de forma a representar  adequadamente o concreto fresco que será avaliado. Para isso, a coleta precisa seguir os procedimentos normativos aplicáveis, considerando o tipo de fornecimento, o equipamento utilizado e a finalidade dos ensaios. 

No caso do concreto fornecido porcaminhão-betoneira, a coleta deve observar os critérios estabelecidos pela ABNT NBR 16886 — Concreto — Amostragem de concreto fresco, que estabelece que, a coleta seja realizada após a descarga dos primeiros 15% e antes de serem descarregados 85% do volume total da betonada. Esse intervalo busca evitar que a amostra seja constituída pelo concreto descarregado no início ou no final da operação, períodos nos quais podem ocorrer diferenças em relação ao material representado pela descarga como um todo. 

Falhas na amostragem do concreto podem comprometer os resultados de resistência e levar a avaliações equivocadas de sua conformidade. Crédito: Imagem ilustrativa gerada por IA

Além do momento da coleta, é importante garantir que a amostra seja composta por porções representativas e em quantidade suficiente para a realização dos ensaios previstos. Uma coleta realizada fora dos critérios estabelecidos pode introduzir diferenças entre as características da amostra e as do concreto que se pretende avaliar, e consequentemente, os resultados podem não refletir adequadamente o material fornecido.

Falhas frequentes durante a coleta

Algumas práticas de coleta, embora recorrentes na rotina de obra, podem estar em desacordo com os procedimentos técnicos recomendados e, consequentemente, a confiabilidade dos resultados. São elas:

  • Coleta no início e no final da descarga: utilizar a amostra de concreto nesses instantes, pode não representar adequadamente o material descarregado ao longo da operação.
  • Volume insuficiente: coletar quantidade menor do que a necessária pode inviabilizar a execução de todos os ensaios previstos ou exigir procedimentos adicionais de coleta.
  • Recipientes inadequados: utilizar recipientes sujos, contaminados ou que possam absorver água pode alterar as características da amostra.
  • Amostra exposta às intempéries: manter o concreto sob sol, vento ou chuva pode favorecer a perda de água da mistura, a incorporação de água externa ou outras alterações antes dos ensaios.
  • Demora na realização dos ensaios: prolongar desnecessariamente o intervalo entre a coleta e a execução dos ensaios pode alterar as propriedades do concreto fresco.
  • Falta de homogeneização: utilizar a amostra sem a remistura  pode favorecer diferenças entre as porções utilizadas nos ensaios.

A identificação dessas falhas é importante para evitar que resultados influenciados por problemas de amostragem sejam interpretados como características efetivas do concreto fornecido.

Como a amostragem influencia os ensaios de concreto fresco

A confiabilidade da amostragem não se encerra com a retirada do concreto do caminhão-betoneira. A representatividade da amostra é fundamental para a avaliação das propriedades do concreto no estado fresco, como a consistência e, quando aplicável, as características de fluidez dos concretos autoadensáveis. Para garantir resultados confiáveis, a amostra deve ser coletada e manuseada adequadamente, homogeneizada e submetida aos ensaios conforme os procedimentos normativos aplicáveis. 

No concreto convencional, por exemplo, o ensaio de abatimento do tronco de cone, estabelecido pela ABNT NBR 16889, permite avaliar a consistência do material.  O ensaio é realizado com molde tronco-cônico metálico, preenchido em três camadas de volumes aproximadamente iguais, em que cada é adensada com 25 golpes uniformemente distribuídos. Após o preenchimento e o rasamento da superfície, o molde é retirado verticalmente para a medição do abatimento.

Já para concretos autoadensáveis, a avaliação pode envolver ensaios específicos de espalhamento, tempo de escoamento e habilidade passante. Como essa avaliação pode exigir maior tempo para a realização de todos os ensaios, os cuidados com a coleta, a homogeneização e o tempo decorrido entre a amostragem e a execução de cada procedimento devem ser redobrados. Essas etapas são fundamentais para preservar as características do material e evitar alterações que possam comprometer a confiabilidade e a representatividade dos resultados.


Douglas de Conto, Assessor Técnico na Cia. de Cimento Itambé. Crédito: Divulgação

Uma amostra não representativa pode apresentar comportamento diferente daquele observado no concreto fornecido. Assim, diferenças nos resultados não devem ser atribuídas automaticamente à produção do concreto sem que sejam considerados os procedimentos de coleta e preparo da amostra.

É importante destacar que a amostragem adequada não elimina as variações naturais do concreto, mas reduz a possibilidade de que os procedimentos de coleta introduzam desvios adicionais na avaliação.

Além dos ensaios de consistência, o concreto fresco pode ser utilizado para moldagem dos corpos de prova,destinados posteriormente à avaliação da resistência mecânica e de outras propriedades do material. A moldagem deve seguir os procedimentos estabelecidos pela ABNT NBR 5738 — Concreto: procedimento para moldagem e cura de corpos de prova.

O número de camadas e golpes varia conforme as dimensões dos moldes, o método de adensamento empregado e, quando aplicável, a consistência do concreto. Independentemente dessas variáveis, todas as moldagens exigem cuidados específicos para garantir a uniformidade dos corpos de prova e a confiabilidade dos resultados, tais como:

  • Distribuir os golpes uniformemente por toda a seção transversal do molde.
  • Na primeira camada, a haste deve atravessar toda a espessura, sem golpear a base.
  • Nas camadas seguintes, a haste deve penetrar aproximadamente 20 mm na camada anterior.
  • Após os golpes, bater levemente na face externa do molde para ajudar a fechar eventuais vazios.
  • Colocar concreto em excesso na última camada para permitir o rasamento, sem completar o molde posteriormente com concreto adicional

A importância da identificação e da rastreabilidade 

A identificação correta da amostra permite relacionar os resultados dos ensaios ao concreto de origem e às condições em que foi coletado. Sem essa relação, a interpretação técnica dos resultados pode ficar comprometida.

O registro das informações deve ser realizado no momento da coleta, de maneira clara e consistente, contemplando, conforme aplicável:

  • Data e horário da coleta;
  • Identificação do caminhão-betoneira;
  • Número da nota fiscal ou documento de fornecimento;
  • Local de aplicação previsto para o concreto;
  • Identificação do lote ou da betonada;
  • Responsável pela coleta;
  • Horário de início dos ensaios e demais registros pertinentes.

Essas informações permitem rastrear a origem da amostra, verificar as condições de coleta e apoiar a análise de eventuais resultados discrepantes.

A rastreabilidade também contribui para a investigação de possíveis desvios, pois possibilita verificar se as amostras foram coletadas em condições comparáveis e se os procedimentos adotados foram devidamente registrados.

O papel da cura na confiabilidade dos resultados

A cura é uma etapa fundamental para o adequado desenvolvimento da resistência dos corpos de prova. Condições inadequadas nessa fase podem comprometer suas propriedades e influenciar diretamente os resultados obtidos nos ensaios.

Durante a cura inicial, os corpos de prova devem permanecer protegidos contra a perda de umidade, a exposição aintempéries e asmovimentações ou vibraçõesque possam comprometer a integridade do concreto ainda fresco. Após o período estabelecido pela norma, devem ser desmoldados e submetidos às condições de cura previstas na ABNT NBR 5738, até a idade especificada para a realização dos ensaios. Algumas falhas são recorrentes durante a cura e o armazenamento, são elas:

  • Exposição ao vento, favorecendo a evaporação da água.
  • Armazenamento sob insolação direta, sujeito a variações de temperatura e perda de umidade.
  • Transporte inadequado dos moldes recém-preenchidos, provocando movimentações ou vibrações;
  • Ausência de proteção contra a perda de umidade durante a cura inicial;
  • Condições inadequadas de armazenamento até a ruptura.

A perda precoce de água e as condições inadequadas de cura podem comprometer o desenvolvimento da resistência do concreto e contribuir para a obtenção de resultados inferiores aos esperados. Por isso, o controle dessa etapa é indispensável para assegurar que os resultados dos ensaios representem adequadamente o potencial do material, sem interferências decorrentes de falhas no preparo e na conservação dos corpos de prova. 

Da amostragem à avaliação da conformidade

A avaliação da conformidade do concreto depende de resultados representativos do lote ao qual estão associados. Quando a amostragem é inadequada, os resultados podem não refletir as características reais do concreto, levando a interpretações equivocadas.

Possíveis impactos de uma amostragem inadequada

  • Avaliação incorreta da conformidade do lote;
  • Necessidade de extração de testemunhos para investigação complementar;
  • Realização de ensaios adicionais para esclarecer divergências nos resultados;
  • Atrasos na liberação de serviços ou no andamento da obra;
  • Custos adicionais de investigações e avaliações complementares;
  • Divergências técnicas e discussões contratuais entre fornecedores, laboratórios e construtoras.

Esses impactos podem gerar custos e esforços adicionais que, em determinadas situações, poderiam ser evitados com a execução adequada da amostragem e o cumprimento dos procedimentos técnicos aplicáveis. 

Conclusão

A amostragem é uma etapa determinante para a confiabilidade do controle tecnológico do concreto. A qualidade de um resultado depende, em parte, da capacidade de a amostra representar adequadamente o material que se pretende avaliar. 

Falhas no momento da coleta, na quantidade de material obtido, nas condições de acondicionamento, na homogeneização ou no intervalo até a realização dos ensaios podem comprometer essa representatividade e conduzir a interpretações equivocadas.

Garantir resultados confiáveis começa com uma amostra representativa. A coleta e o preparo adequados não eliminam todas as fontes de variação, mas constituem condições essenciais para que os ensaios forneçam informações tecnicamente consistentes sobre o concreto avaliado. 

Referências técnicas

  • ABNT NBR 16886 — Concreto — Amostragem de concreto fresco.
  • ABNT NBR 16889 — Concreto fresco — Determinação da consistência pelo abatimento do tronco de cone.
  • ABNT NBR 5738 — Concreto — Procedimento para moldagem e cura de corpos de prova.
  • ABNT NBR 12655 — Concreto de cimento Portland — Preparo, controle, recebimento e aceitação.
  • ABNT NBR 15823, série — Concreto autoadensável, quando aplicável aos ensaios mencionados.

Autor

Douglas De Conto é engenheiro civil pela UNIFACEAR, tecnólogo em Concreto pela UTFPR e especialista em Patologia nas Obras Civis pelo IDD. Possui mais de 15 anos de experiência na construção civil, com foco em tecnologia do concreto. Atua em consultoria técnica para concreteiras, indústrias de pré-fabricados e fabricantes de artefatos de concreto, além de desenvolver diagnósticos de manifestações patológicas e soluções voltadas à durabilidade e ao desempenho das estruturas.

Contato

douglas.deconto@cimentoitambe.com.br

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