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Sustentabilidade é também responsabilidade social

Construção Sustentável, Novas Tecnologias, Tendências construtivas 23 de março de 2009

Professor da USP esclarece o que são projetos sustentáveis e aponta se o Brasil está no caminho certo

Edifício-sede da Petrobras, no Rio: exemplo de construção sustentável no Brasil

Edifício-sede da Petrobras, no Rio: exemplo de construção sustentável no Brasil

Na prática, o conceito de edificações sustentáveis não tem nem dez anos. Apesar de o avanço ser considerável neste período, o professor Marcelo de Andrade Romero, da Fundação para a Pesquisa Ambiental – órgão conveniado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo -, acredita que há muito por fazer ainda. Especialista no assunto, ele começa defendendo que as escolas de engenharia e arquitetura se voltem com mais atenção para a sustentabilidade. Além disso, esclarece que é preciso desmistificar o tema. Segundo o professor, projetos sustentáveis não fazem parte apenas de grandes edificações. Eles podem estar presentes também em casas populares. Essa e outras teses ele defende na entrevista a seguir. Confira:

No Brasil, quando se fala em construção sustentável, pensa-se logo em obras que demandam alta tecnologia e custo elevado. Uma construção barata também pode ter um perfil de sustentabilidade? Como?
Claro que pode, sem dúvida nenhuma. Uma construção sustentável não precisa ser uma construção cara, nem com alta tecnologia. Qualquer construção pode ter um caráter de sustentabilidade, desde que o seu projeto de arquitetura contemple critérios de sustentabilidade, a escolha dos materiais contemple critérios de sustentabilidade e a construção contemple critérios de sustentabilidade. Não tem problema nenhum. E é claro que isso pode acontecer de uma casa de interesse social até um prédio de 50 andares, com escritórios. Então não é verdade que apenas os edifícios caríssimos são sustentáveis, de forma nenhuma.

Como está o nível dos profissionais da engenharia no quesito construções sustentáveis? Ainda falta qualificação no setor?
Falta muita qualificação no setor, mas isso não é culpa do setor. Acontece que a questão da sustentabilidade nos edifícios, com alguns critérios definidos, surgiu no início deste século. Portanto, não tem nem dez anos. Então, o mercado ainda está se preparando para isso. É algo novo, mas as escolas precisam estar atentas para abordar o tema.

E o mercado de trabalho para esses profissionais, como está?
Existem cursos de pós-graduação que já estão tratando deste assunto. Os profissionais e o mercado da construção estão atentos a isso. Os selos internacionais estão entrando no Brasil, apesar de estarem produzindo no mundo pouco mais que dez anos. Então eu diria que a velocidade que o Brasil está acompanhando é muito boa. O país está atendendo a demanda e começa a responder às exigências da sustentabilidade.

Uma obra construída dentro do conceito de sustentabilidade pode deixar de sê-la se quem for usufruir dela não souber usá-la?
Não, por que a construção, por si só, já faz um controle maior de consumo de energia, água e de emissão de poluição. Isso já está incorporado desde o projeto. Mas é claro que se o usuário tiver um controle maior do uso, esse edifício de alta tecnologia terá um desempenho melhor de suas operações ou, como nós chamamos, de comissionamento.

No Brasil, existe alguma edificação que seja o grande exemplo de construção sustentável. Qual?
Esta é uma questão difícil de ser respondida, pois existem obras sustentáveis, existem edifícios sustentáveis, como também existem obras que receberam selos de certificação sustentável. Existem edifícios com caráter de sustentabilidade e existem edifícios certificados, que são coisas separadas. No Brasil existem edifícios interessantes. Citaria como exemplo dois em São Paulo e um no Rio. Um é o do Banco Real/Santander, o outro é um laboratório de análises clínicas e tem o prédio da Petrobras, no Rio.

Qual a real definição de uma edificação sustentável?
A sustentabilidade, tal como é entendida hoje, envolve um controle muito grande do consumo de água, do consumo de energia, da geração de resíduos, da poluição interna e da qualidade do ambiente interior. Então, um edifício sustentável é um edifício que tenha estas características.

Só no fato de um construtor usar materiais certificados, dentro das normas técnicas, sem desperdiçá-los, é considerado um exemplo de obra sustentável?
Não. Só o fato do uso de materiais não. É muito positivo, é muito importante, evidentemente, mas o conceito de sustentabilidade vai além de materiais. Os edifícios durante a sua vida útil têm que consumir o menos possível de energia e água.

Sobre as pessoas que trabalham diretamente na obra, como conscientizá-los de que ele pode contribuir com a sustentabilidade da obra apenas evitando o desperdício, por exemplo?
Isso é o papel que a construtora vai ter, organizando o pessoal de canteiro. Tem duas coisas: primeiro reduzir o desperdício e segundo tem que pegar os resíduos da construção e canalizar este resíduo para a reciclagem. São dois trabalhos. Primeiro, reduzir o resíduo; segundo, organizar o resíduo e levá-lo para tratamento e aproveitamento. Quem faz isso é a empresa que gerencia. É um papel muito ligado entre construtora e gerenciadora. Uma obra sustentável passa por esta etapa.

Para pegar um exemplo simples, que pudesse ilustrar bem essa questão de construção sustentável, poderia ser usada a fábula dos três porquinhos ou hoje aquela estória deveria ser contada de outra forma?
Na verdade, você pode ter uma casa sustentável de palha, de madeira ou alvenaria. Se estas casas forem construídas de acordo com o clima, com critérios de sustentabilidade, e tiverem um controle grande de poluição interna, água e energia, elas podem ser sustentáveis perfeitamente. Pode ser qualquer uma. Então, hoje, a gente teria que mudar a história dos três porquinhos.

Onde a construção sustentável mais ganha destaque: no decorrer da obra, quando ela evita desperdício; na questão do saneamento básico ou na questão do consumo de energia elétrica e de água?
De tudo. A construção sustentável tem um controle maior na questão de consumo de água e conseqüentemente de água residual. Ela também tem um controle grande na quantidade de água tratada utilizada para irrigação, que deve ser mínima. Tem ainda a importância na reutilização da água, do tratamento dos resíduos e de água in loco. A questão da energia se divide em dois blocos. Primeiro, a energia que pode ser reduzida por meio do projeto de arquitetura e a energia ativa, que é a energia elétrica utilizada durante a vida útil. Então são duas energias. A questão é: quanto eu posso conservar de energia futura por meio do projeto de arquitetura, que são as tecnologias passivas? E tem as tecnologias ativas que é consumo de energia elétrica resultante. Na verdade, tudo tem a mesma importância. O que acontece é que às vezes uma certificação dá mais peso para uma, outra certificação dá mais peso para outra. Mas todas são importantes.

Como o conceito de construção sustentável poderia agir nas áreas com favelas. Há solução para esse problema?
Na favela em si acho difícil. Mas nos programas que você substitui favelas por construções regulares de interesse social, aí pode tranqüilamente e tem um mercado enorme para isso.

A questão da construção sustentável passa também pela questão social, correto?
Passa perfeitamente. Porque um dos itens da sustentabilidade é a responsabilidade social. Então passa pela questão da construção sustentável no processo de produção, passa pela qualidade do edifício entregue para o mutuário e passa pela qualidade que ele vai ter de uso e operação. Em algumas certificações isso aí é uma condição que tem que ser seguida.

Uma obra tem várias etapas: em qual delas os conceitos de sustentabilidade são mais importantes?
A gente pode definir o processo projetual de produção dos edifícios em três partes. Na verdade, essas partes também podem se subdividir. A primeira é a parte de desenho, de concepção. É a parte projetual em si. Nela, os critérios de sustentabilidade têm de entrar desde o primeiro traço, senão você não consegue depois. Então isso aí tem um peso enorme. A segunda parte também tem um peso com a mesma proporção, que é quando você constrói. A terceira etapa, a parte de uso e operação, é quase que uma decorrência das duas anteriores. Ela tem um peso grande, que é o peso de você operar o edifício da forma que ele foi construído e projetado. Mas eu diria que o maior peso está nas duas primeiras etapas, que é quando se concebe o projeto e quando se constrói. A parte de uso é quase uma decorrência.

Jornalista responsável – Altair Santos MTB 2330 – Tempestade Comunicação.



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