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Falta de engenheiros pode comprometer crescimento

Qualificação Profissional, Universidade e Pesquisa 31 de agosto de 2011

Alerta parte da Abenge (Associação Brasileira de Ensino de Engenharia) que demonstra preocupação com a alta evasão de estudantes nas universidades

Por: Altair Santos

Pela quantidade de vagas de que oferece nas universidades públicas e privadas, o Brasil poderia formar pelo menos 90 mil engenheiros por ano. No entanto, a média anual do país tem sido de 40 mil. Isso o deixa em penúltimo lugar, se comparado com os demais países do chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Sem termo de comparação com os chineses, que são quase 1,5 bilhão e formam 650 mil profissionais de engenharia por ano, o Brasil, que tem uma população de 193 milhões, está bem atrás da Índia (220 mil engenheiros formados por ano) e da Rússia (190 mil).

Professor Vanderli Fava de Oliveira, diretor da Abenge: “Qualquer setor que queira crescer depende, antes de tudo, da engenharia civil.”

O problema brasileiro se concentra no baixo interesse dos estudantes de ensino médio pelos cursos de engenharia, principalmente os oferecidos pelas universidades privadas, e no elevado nível de evasão dos cursos de graduação. Por isso, ao longo de 2011 a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem realizado reuniões, através do Grupo de Trabalho (GT) das Engenharias, para analisar a situação da formação de engenheiros no Brasil e propor medidas que tornem os cursos mais atrativos.

Na visão do diretor da Abenge (Associação Brasileira de Ensino de Engenharia), Vanderli Fava de Oliveira, que integra o GT-Engenharias, essa falta de engenheiros, principalmente na área engenharia civil, pode comprometer o crescimento do país. É o que ele analisa na entrevista a seguir. Confira:

Recentemente, o Grupo de Trabalho (GT) das Engenharias, ligado ao Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) constatou alta evasão dos cursos de engenharia. Como a Abenge vê isso, e mais: está sendo feito algo para reverter esse quadro?
De fato, a evasão é bastante alta. Participei do núcleo de pesquisa que forneceu estes dados para o grupo de trabalho da Capes, que é apoiado pela Abenge. Verificamos que a evasão nos cursos de engenharia (abrangendo todas as especialidades) está em torno de 54%. Essa é uma média dos últimos dez anos e só recentemente essa evasão começou a decrescer. Evidentemente, que nas universidades públicas a evasão é um pouco menor, cerca de 41%. Nas escolas privadas passa de 60%. É um número muito alto, dadas as necessidades atuais de engenheiros.

Há motivos que expliquem essa evasão?
Vemos isso com muita preocupação, pois o Brasil carece de gente para trabalhar em tecnologia e, ao mesmo tempo, convive com alunos que um dia quiseram fazer engenharia, chegaram a passar no vestibular, mas logo nos dois primeiros anos abandonaram o curso. Por isso, a Abenge tem participado de atividades e tem reivindicado, junto ao MEC, que sejam desenvolvidos programas para despertar vocações e para reter o aluno nas universidades, quer dizer, criar condições e melhorar os projetos pedagógicos dos cursos de engenharia para que o aluno não os abandone. Uma das razões do abandono é a dificuldade que o estudante tem de levar o curso na parte de matemática e física, principalmente. Ele não é bem preparado no ensino médio para o grau de exigência dos primeiros anos do curso de engenharia. Mas isso pode ser resolvido facilmente com novas metodologias, utilizando melhor os meios de ensino e aprendizagem disponíveis. Enfim, com melhorias de processamento de ensino e aprendizagem dá para reduzir bastante esta evasão assustadora.

Especificamente sobre engenharia civil, constata-se também evasão grande dos cursos pelo país afora?
A civil, até pouco tempo, era uma das que mais tinha índice de evasão. Aliás, além da evasão nós temos outro problema: a retenção. A média é maior que seis anos e meio. Em muitas escolas, o aluno leva até sete anos para se formar, ou seja, ele fica retido além da expectativa do curso, que é de ser concluído em cinco anos.

Outro dado preocupante apurado pelo GT das Engenharias é que boa parte das vagas oferecidas em vestibular não são preenchidas. A que se deve isso?

Nas públicas, 94% das vagas são ocupadas. Nas privadas, não. O que ocorre é que as privadas abrem em média 140 vagas por curso. Nós não temos nenhum documento oficial que diga isso, mas percebemos que as privadas abrem muitas vagas no início, porque já sabem do índice de evasão. Então, fazem isso com a expectativa de aumentar o número de concluintes, pois se abrissem um pequeno número de vagas correriam o risco de formar menos alunos ainda. Por isso, abrem em média 140 vagas. São muitas vagas e aí, muitas vezes, não encontram alunos suficientes para preenchê-las. Houve um crescimento bem grande de cursos de engenharia, hoje estamos com cerca de 2.500 cursos funcionando em todo o país.

Há algum trabalho da Abenge ou de outro organismo para disseminar o interesse pelos cursos de engenharia?
O nosso trabalho é em conjunto com outros organismos como, por exemplo, este caso da Capes. Tem ainda o projeto Nova Engenharia, que é patrocinado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e pelo sistema CONFEA/CREA. Enfim, são ações, mas que precisam de um apoio oficial do governo, no sentido de fomentá-las. Senão, elas não têm grande alcance. É essencial para a questão do desenvolvimento. O país cresce, mas a base da economia são as commodities. O Brasil não tem tecnologia de ponta. Nosso único produto competitivo a nível internacional são os aviões da Embraer. Em questão de automóveis e eletroeletrônicos, ficamos para trás. O país vai bater num ponto em que não vai conseguir se desenvolver mais, pois não apostou em tecnologia, não apostou em desenvolvimento tecnológico. E o ator principal do desenvolvimento tecnológico é o engenheiro.

Não seria o caso de rever a grade curricular, para tornar os cursos mais atraentes, mais práticos e menos teóricos?
Mais do que isso, é rever os projetos pedagógicos do curso. O problema central hoje está no processamento das atividades, quer dizer, nós encontramos muitas aulas sendo dadas hoje iguais às que eram ensinadas no começo do século passado, onde o professor ficava na frente falando para uma porção de alunos sentados nas carteiras. Isso está superado. Isso não forma. Outra questão é a atividade prática ou atividade contextualizada, onde o aluno deve aprender em situações o mais próximo possível do real. Hoje, o que as empresas querem? As empresas não estão muito interessadas no que o aluno sabe, mas no que ele sabe fazer com o que aprendeu na escola. Isso só se desenvolve através de atividades de contextualização do conhecimento que ele vai adquirindo, ou seja, o aluno ao estudar um conceito tem de ver como este conceito é aplicado na prática, como é que ele acontece dentro de uma empresa ou numa situação real ou num problema real de engenharia.

De qualquer forma, por causa da oferta de trabalho, parece ter crescido o volume de alunos que procuram os cursos de engenharia, correto?
Nas universidades públicas, sim. Quanto às privadas, elas ainda têm dificuldade em fazer o aluno entender que tem muitas de boa qualidade também. Então o estudante fica pensando que só as públicas têm qualidade, mas tem muitas privadas com cursos excelentes.

Dos países do chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) o Brasil forma menos engenheiros que China, Rússia e Índia. O que precisaria ser feito?

Primeiro fomentar vocações. Quer dizer, despertar vocações no ensino fundamental ou médio, mostrando que matemática e física não são bichos de sete cabeças. Segundo, investir pesadamente na mudança dos projetos pedagógicos dos cursos para que eles possam melhorar a forma como o conhecimento de engenharia é disponibilizado por aluno.

O crescimento sustentável da construção civil brasileira depende da formação de mais engenheiros. Esse paradoxo pode atrapalhar o setor?
Pode sim. Qualquer setor que queira crescer depende, antes de tudo, da engenharia civil. O engenheiro civil é aquele que monta a infraestrutura, é aquele que vai criar as condições para que um empreendimento aconteça. É ele que vai criar as condições infraestruturais para que o produto seja distribuído e gerado, seja através de estradas, aeroportos, portos e usinas. Tudo isso passa pela engenharia civil. Se tivesse que escolher por onde começar a melhoria, deveríamos começar pela engenharia civil.
Em função da falta de engenheiros, o Brasil não corre o risco de ver essas vagas ociosas serem absorvidas por estrangeiros?
É um fenômeno que está batendo nas nossas portas. O Brasil hoje tem convênio com países do Mercosul. Trata-se de um intercâmbio entre muitas universidades brasileiras, que podem receber alunos de fora para que venham cursar disciplinas aqui. Estamos a caminho da dupla diplomação. Nós já temos muitos engenheiros chilenos, uruguaios e argentinos trabalhando no Brasil. Não é de todo ruim. Por quê? Se o Brasil não consegue formar o suficiente, vai trazer de fora. Por exemplo, os Estados Unidos precisam de 100 mil engenheiros por ano. Trinta mil ele importa e setenta mil ele forma. Mas o bom seria que, para a demanda interna, o Brasil formasse seus próprios engenheiros, o que hoje não acontece.

Entrevistado
Vanderli Fava de Oliveira, diretor de comunicação da Abenge (Associação Brasileira de Ensino de Engenharia)
Currículo

– Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em 1979
– Tem Mestrado (1993) e Doutorado (2000) em Engenharia de Produção pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – COPPE/UFRJ
– Pós-Doutorado (2009) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
– Atualmente é Professor Associado III da UFJF, Secretário de Avaliação Institucional da UFJF e Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Formação e Exercício Profissional da Faculdade de Engenharia da UFJF (NUPENGE)
– Membro designado (portaria 747/2009-MEC) da Comissão Técnica de Acompanhamento e Avaliação (CTAA) do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (INEP), Avaliador de Cursos do Sistema ARCU-SUR (Sistema de Credenciamento Regional de Cursos de Graduação em Engenharia dos Estados Partes do MERCOSUL e Estados Associados)
– Membro da Comissão do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE 2005, 2008 e 2011 – INEP/MEC
– Membro da Equipe Técnica do Programa Regional de Educación para el Desarrollo de Capacidades en Innovación Tecnológica y Emprendedorismo en Carreras de Ingeniería (PRECITYE) – Argentina, Brasil, Chile e Uruguai – financiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)
– Diretor da Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (ABENGE)
– Membro do Grupo de Trabalho de Graduação da Associação Brasileira de Engenharia de Produção (ABEPRO)
– Membro da Comissão de Especialistas em Engenharia de Produção do CONFEA/MEC
– Coordenador das Sessões Dirigidas do ENEGEP (Encontro Nacional de Engenharia de Produção) e do COBENGE (Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia) desde 2007
– Membro do Comitê Científico dos periódicos: Revista de Educação em Engenharia (0101-5001) – Produto & Produção (1516-3660) – Graf & Tec (1413-6481), – Revista Educação Gráfica – Revista GEPROS (1809-614X) – Revista Eletrônica Produção & Engenharia
Contato: vanderli@acessa.com / vanderli.fava@ufjf.edu.br

Crédito Foto: Divulgação/Abenge

Jornalista responsável: Altair Santos – MTB 2330


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