Escola falha em inovação e prejudica empresas

Mário Mendes Júnior: Brasil tem cultura de segregar mundo das ciências

Escola falha em inovação e prejudica empresas

Escola falha em inovação e prejudica empresas 548 409 Cimento Itambé

Do ensino fundamental às universidades, políticas pedagógicas valorizam pouco os mecanismos que formam profissionais focados na produtividade

Por: Altair Santos

Para o consultor Mário Mendes Júnior, as escolas brasileiras – do ensino fundamental às universidades – têm políticas pedagógicas equivocadas em relação à inovação. Elas priorizam a escolarização em detrimento do espírito empreendedor, um dos pilares que levam ao surgimento de movimentos inovadores. Ainda segundo Mário Mendes Júnior, o governo também erra em não financiar a inovação, direcionando recursos maiores para projetos e empresas já consolidadas. Assim, o país deixa de dar um tratamento linear à inovação, limitando-se a nichos. Um deles é a construção civil, como o entrevistado revela a seguir:

Mário Mendes Júnior: Brasil tem cultura de segregar mundo das ciências

Por que o Brasil ocupa posição tão ruim em rankings internacionais de inovação?
Porque investe errado na educação. Digo isto, porque ciência, tecnologia e inovação estão muito distantes da população, chegando a ser quase uma ficção de Júlio Verne para a maioria dos brasileiros. Como no Brasil a maior parte das inovações acontece por acaso, e os índices de classificação quase sempre estão ligados ao número de registro de patentes, sempre ficamos para trás. Identificar a inovação e ter acesso a sua proteção é fundamental para começarmos a melhorar a nossa participação nos rankings. Um bom exemplo é o caso do inventor brasileiro do identificador de chamadas telefônicas (Bina), que luta na justiça até hoje pelos seus direitos de propriedade intelectual.

Qual a responsabilidade do governo neste mau desempenho?
Crianças crescem muito rápido e não pertencem a nós (seus pais). Elas pertencem ao seu tempo. Aplico aqui esta frase porque é comum no Brasil confundirmos educação com escolarização, embora ambos apoiem na formação do indivíduo. O problema é que as políticas pedagógicas que norteiam a educação no Brasil são totalmente equivocadas e pouco levam em consideração os mecanismos de produção de inovação.

Qual a responsabilidade das empresas neste mau desempenho?
No Brasil, competir no mercado internacional já é algo muito inovador. O que faz com que uma companhia seja mais inovadora de fato não é apenas o que ela inventa, mas sim como gasta o escasso recurso disponível. A habilidade para direcionar investimentos e executar estratégias é a verdadeira responsabilidade das empresas brasileiras, tendo em vista o restrito cenário que têm para inovar.

Qual a responsabilidade das universidades neste mau desempenho?
O principal papel das universidades é inovar na metodologia de atração de estudantes mais talentosos, estimulando a empreenderem. No Brasil, ainda se tem a cultura catedrática de segregar o mundo das ciências: exatas, biológicas, humanas e artes. Este esquema é contraproducente, pois quanto mais humanizado e eclético um engenheiro for, mais percepção das necessidades da sociedade terá. Isto vale também para as artes, cada vez mais audiovisuais e tecnológicas. Sair da era dos diodos e tríodos para a da colaboração multidisciplinar é o fator crítico de sucesso das universidades brasileiras.

Há algum segmento da economia nacional que se destaque em inovação?
Sim, a construção civil sempre se destacou e ainda será a vanguarda das próximas décadas. Não apenas pela demanda sempre crescente da infraestrutura, e pela necessidade de eliminação do déficit habitacional brasileiro, mas também pela contribuição mundial que nossos urbanistas e engenheiros emprestam ao mundo há mais de um século. Um bom exemplo é o engenheiro civil Saturnino de Brito (patrono da engenharia sanitária do país). Passados mais de 84 anos, algumas de suas obras seguem extremamente eficientes e resolveram muitas das mazelas de água e esgoto nas cidades brasileiras e também mundo afora. Em resumo: criamos uma grande escola de engenharia para desenvolvimento de cidades.

Como o senhor vê a construção civil brasileira sob o aspecto da inovação?
Se a construção civil não inovar a passos mais largos no Brasil, será inviável viver em uma sociedade sustentável. As políticas públicas até 2050 certamente suprirão nosso déficit habitacional e finalmente teremos resolvido as questões de água e esgoto, pois isso já vem acontecendo em diversos países. No futuro não haverá lixo, e sim matéria-prima a ser reprocessada. Este é o futuro da construção: desenvolvimento de materiais cerâmicos, polímeros e biopolímeros com ciclos eternos de reutilização. Não tenho dúvida de que o setor dará conta, pois algo parecido já ocorreu na área envolvendo a migração das tecnologias de materiais da petroquímica para a cloroquímica.

O setor da construção civil é, naturalmente, árido para a inovação ou há segmentos ainda mais restritos?
Há tanto espaço para inovação na construção civil quanto a defasagem existente entre o que conhecemos sobre o universo e a sua real extensão. Abrir a mente para novos modelos de moradias e novos materiais será premissa fundamental. Quando se trata de inovação, não há segmento restrito, pois sempre haverá a possibilidade de resolver uma demanda de forma mais econômica, sustentável e segura. A restrição sempre será o acesso ao capital de risco, já que alguns segmentos são mais atraentes para os investidores.

O capital humano é o grande propulsor da inovação?
Digamos que seja o vetor fundamental. Porém, sem política industrial de inovação ainda seremos meros coadjuvantes neste processo. Ainda que o mundo esteja cada vez mais plano, as novas tecnologias de produtos e serviços deverão complementar outros processos tecnológicos globais. Temos como exemplo disto a dobradinha Estados Unidos e Índia nos segmentos de Tecnologia da Informação e Comunicação.

Mas só capital humano não basta. O que é preciso mais?
É preciso um maior acesso ao capital de risco empreendedor, que leve em conta os setores mais promissores e estratégicos do Brasil, em detrimento das empresas consolidadas de mercado – hoje financiadas pelo BNDES.

O que o Brasil deve fazer para melhorar seu desempenho em inovação?
É preciso uma nova geopolítica e também renovação política para que os reduzidos programas de subvenção econômica e fomento sejam mais eficazes. Nossos parceiros do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão mais rápidos do que nós neste nivelamento do globo.

Entrevistado
Pesquisador Mário Mendes Junior, voltado a temas de desenvolvimento econômico mundial. É autor do livro “Procura-se Jovem Negro para Salvar o Planeta”.
Contato: mariomj@terra.com.br

Crédito Foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
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