Softwares não substituem calculistas de estruturas

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Softwares não substituem calculistas de estruturas

Softwares não substituem calculistas de estruturas 669 442 Cimento Itambé

Dia 4 de maio, profissional comemorou sua data. Para o professor Tales Pedro de Souza, desafio é formar novos talentos e conscientizar mercado

Por: Altair Santos

Dia 4 de maio comemorou-se o dia do calculista estrutural. É ele o responsável pela concepção do arcabouço estrutural que sustentará a edificação diante das ações que ela sofrerá ao longo de sua vida útil. O calculista avalia as ações que poderão agir e executa cálculos que determinam os esforços suportados em cada peça da estrutura à base de concreto. Se a estrutura for metálica, o calculista dirá qual o tamanho, forma e peso dos perfis, e como eles devem ser soldados entre si.

Tales Pedro de Souza: software não concebe e nem se responsabiliza pelas ações nas estruturas

Tales Pedro de Souza: software não concebe e nem se responsabiliza pelas ações nas estruturas

O profissional pode atuar em um amplo leque de atividades. Existem atualmente calculistas especializados em concreto, metais e madeira. De forma geral no caso da engenharia civil, esses profissionais calculam quais as cargas que serão suportadas pelas edificações e faz o dimensionamento da estrutura. As informações vão para outro tipo de calculista, que é o especializado em fundações. É ele quem determina como uma edificação vai se apoiar sobre o solo já estudado anteriormente. Neste caso, é desejável que o profissional seja conhecedor das questões em geotecnia.

Na entrevista a seguir, o engenheiro-calculista Tales Pedro de Souza, com 32 anos de experiência, explica como estão as demandas e os desafios da profissão. Confira:

Dia 4 de maio comemorou-se o dia do calculista de estruturas. Pergunta-se: há o que comemorar?
Diria que há sim motivos para comemorar, e não apenas no dia 4 de maio e sim em diversas ocasiões ao longo dos dias e anos de trabalho. Essas comemorações estão geralmente ligadas ao reconhecimento que clientes, construtores e arquitetos têm no nosso trabalho e, principalmente, quando vemos prontas as obras cujos projetos tivemos participação como calculista. Temos uma palestra que apresentamos em universidades, intitulada “Cálculo Estrutural: Arte ou Ofício?”, que fala justamente do prazer que o calculista tem de participar da obra arquitetônica. Não apenas como um ofício de calculista, mas também com a arte da concepção, fundamental para viabilizar a ideia arquitetônica.

A profissão de calculista está conseguindo reposição no mercado? A percepção que se tem é que há poucos engenheiros-calculistas novos e boa parte já está há tempos na profissão.
Como em qualquer profissão e, essencialmente nesta, que é uma área de consultoria, obviamente a experiência e o conhecimento prático do cálculo estrutural fazem muita diferença. Não creio que haja tão poucos engenheiros novos calculando estruturas, mas os que se destacam acabam sendo os mais antigos, justamente pela confiabilidade que conseguem passar aos seus clientes. Historicamente, bons calculistas são aqueles que já trabalharam com outros mais antigos e puderam ter a chance de praticar o cálculo estrutural. Não sei dizer se esse processo é suficiente para criar a reposição ideal de profissionais e atender toda a demanda de cálculo estrutural. O que a gente sente é que se o pretenso calculista não souber a teoria, e como aplicá-la num projeto, ele não conseguirá se manter no ofício.

É uma profissão sob risco de extinção?
Não creio que essa profissão possa um dia ser extinta. Por mais avançados que possam ser os sistemas computacionais para o cálculo estrutural, eles sempre serão ferramentas de uma ciência e nunca a solução para os problemas. O calculista é quem determina as ações sobre uma estrutura e estas ações são dados para que um software possa processar qualquer cálculo. Se as ações estiverem erradas ou mal interpretadas todo o cálculo estará errado, colocando em risco as estruturas projetadas. Além do mais, conceber a estrutura que dará suporte a qualquer obra é também uma arte e uma boa concepção resultará num cálculo técnico e economicamente adequados a cada criação arquitetônica. Vale lembrar que o cálculo estrutural não existe apenas para edificações, mas também para pontes, barragens, obras industriais, navios, aviões, veículos, objetos das engenharias naval, aeronáutica e mecânica, além da engenharia civil. Assim, não vejo como a profissão de calculista poderia ser extinta.

Atualmente, com novos sistemas construtivos, vários tipos de concreto, estruturas mistas e inovações agregadas à construção civil, o que mudou para os calculistas?
Uma vez me perguntaram se, com tanta inovação tecnológica, por que eu não poderia projetar uma estrutura mais esbelta, com menores dimensões nas peças estruturais. Então, respondi que, enquanto não mudassem a lei da gravidade os esforços que agem em qualquer estrutura continuariam sempre os mesmos. Novos sistemas construtivos e inovações não mudam o princípio do cálculo estrutural, que se concentra nos esforços das estruturas. O que pode mudar é o dimensionamento dos elementos, com base nas resistências que esses novos materiais podem ter. Dimensionar uma viga em concreto armado, por exemplo, é bem diferente de dimensionar uma viga em concreto protendido e, certamente, o tamanho da viga dimensionada será diferente para cada caso. Diante de um novo sistema, então, basta o calculista estudar as propriedades do novo material e então aplicar suas características de resistências aos dimensionamentos que está fazendo. Isso, desde que o novo material seja técnica e economicamente interessante de ser utilizado pelo cliente.

As especificidades do concreto usado em uma obra são responsabilidade do engenheiro-calculista?
Sim e não. Essa é uma questão muito clara no meio técnico e nas atribuições do calculista de estruturas. Na verdade, falamos em propriedades do concreto. Então, a resposta é sim, se estivermos falando do que chamamos de propriedades do concreto endurecido. Já a resposta será não se estivermos falando das chamadas propriedades do concreto-massa. Logo, é sim responsabilidade do calculista especificar as propriedades que se esperam do concreto quando ele estiver endurecido, constituindo as peças da estrutura concretada. A principal propriedade chama-se “fck” e significa, simplificadamente, a resistência à compressão de um concreto. Outra propriedade também importante é o módulo de elasticidade do concreto, que determinará como uma peça da estrutura irá se deformar sob a ação dos carregamentos aos quais estará submetida. Agora, propriedades como a consistência da massa de concreto, extremamente importante para determinar a trabalhabilidade do concreto nas ações de concretagem ou, ainda, especificidades de dosagem (qual a quantidade de cada ingrediente para formar um concreto) são de responsabilidade de quem está dosando (fabricando) o concreto (a concreteira, por exemplo) e de quem está comprando e aplicando o concreto (a engenharia de obra, por exemplo). Em resumo, para que o cálculo estrutural dê certo, o concreto precisa atingir resistências e adquirir as propriedades que foram especificadas no cálculo. Contudo, para conseguir em obra um concreto que cumpra esta missão, o engenheiro de obra terá inúmeras variáveis que irão sugerir uma dosagem e consistência adequadas e nisto o calculista não tem nenhuma responsabilidade. Apesar desta separação de responsabilidades, inclusive definidas por normas técnicas, calculista e engenheiro de obra conversam muito sobre essas propriedades, especialmente se as obras forem de estruturas especialmente complicadas, onde as peças possam ser de mais difícil concretagem.

Com relação aos softwares, como o BIM e outros sistemas computacionais, há quem prefira investir neles e esquecer dos calculistas?
Há uma preocupação muito grande sobre o uso de softwares para o cálculo estrutural, como se estes softwares fossem a solução para qualquer problema de estruturas. Na verdade, eles devem ser encarados como ferramentas para o cálculo. Assim, saber operar um software não significa saber calcular estruturas. Esta pode ser uma diferença importante entre o engenheiro novo e o mais experiente. Não há sistema, por mais sofisticado que seja, que possa ser operado prescindindo do calculista. O software não concebe, ele é apenas uma ferramenta do processo de cálculo como um todo. Achar que, ao adquirir um software, o problema do cálculo está resolvido é a melhor maneira de colocar o empreendimento em risco de segurança estrutural. Falando de BIM, ele não é propriamente um software, e sim um conceito. O Building Information Modeling pretende ter modelado em três dimensões todos os elementos de uma construção e não somente a estrutura. Tecnicamente, nada tem a ver com cálculo estrutural em si. O software que nós utilizamos hoje para cálculo conta com modelagem tridimensional e propriedades destes elementos que permitem interação com modelos BIM. Mas este trabalho de compatibilização de todos os projetos sob modelos BIM não é atribuição do calculista de estruturas.

Ainda sobre os softwares, eles facilitaram ou dificultaram a vida dos calculistas?
Sem dúvida, facilitaram. Desde que o calculista os tome como ferramentas, apenas. Como já comentado, software não concebe estruturas e nem se responsabiliza pelas ações (forças) a serem aplicadas para calcular a estrutura. Também conforme já comentado, discute-se se o software na educação das engenharias ajuda ou atrapalha. Como disse, saber operar um software não significa saber calcular uma estrutura. O mais grave, inclusive, é usar o software e não saber depois avaliar se o resultado apresentado dos cálculos ou desenhos do software estão corretos e adequados. É preciso entender o cálculo estrutural em sua essência para se ter segurança ao calcular.

Gostar de matemática e física é fundamental para abraçar a profissão de calculista

Gostar de matemática e física é fundamental para abraçar a profissão de calculista

Para que um engenheiro queira se tornar um calculista, o que é recomendado ele fazer?
Em primeiro lugar, deverá simpatizar com uma série de disciplinas da graduação. Desde o início, é bom não desprezar as aulas de física, principalmente a parte de mecânica. Disciplinas de cálculo e geometria também. Mais para frente, nas disciplinas específicas, é fundamental entender muito bem a disciplina de resistência dos materiais – de fato, um primeiro contato com o cálculo estrutural. Aí vem a disciplina chamada teoria das estruturas, cujo nome já diz tudo. Tem também as disciplinas de sistemas estruturais (o nome varia de escola para escola). Esta última divide-se em estudos do dimensionamento de elementos estruturais nas modalidades de metálica, madeira e concreto. No meu tempo havia disciplinas optativas de estruturas de edifícios (uma visão prática do cálculo estrutural de um edifício) e outras como a disciplina de pontes. Com essa base teórica, o mais indicado é estagiar em um escritório de cálculo e praticar principalmente o desenho estrutural. De nada adianta saber tudo sobre o cálculo e não ter uma boa linguagem em forma de desenhos para a obra. A prática do desenho estrutural, assim como as boas conversas com calculistas mais velhos, ajudam a ter segurança sobre o resultado obtido nos softwares de cálculo.

Em termos de remuneração, é interessante ser um engenheiro-calculista?
Como todos os ofícios, há altos e baixos nesta questão. Estamos falando de construção civil, uma atividade econômica que sabemos nunca ter tido um nível de estabilidade constante. Vai depender da credibilidade adquirida pelo calculista no mercado. Vemos engenheiros, e até mesmos escritórios, que, diante de uma suposta facilitação dos trabalhos pelo uso de softwares, baixaram os preços dos serviços com o intuito de conseguirem muitos projetos. Essa estratégia tem se mostrado frágil e pouco duradoura. Mal comparando, para o construtor/empreendedor/cliente, o calculista é como um “médico de família”, tal a responsabilidade que o ofício encerra. Assim, o calculista preparado terá sim como cativar seus clientes e, a partir daí, a remuneração será proporcional a esse bom atendimento e ao bom resultado da obra. Esse conceito não é muito diferente para qualquer outra especialidade da engenharia.

Quanto tempo é necessário para se formar um bom engenheiro-calculista?
Tempos atrás eu diria que seriam razoáveis uns bons dez anos de prática para se atingir uma certa maturidade nesta especialidade. Isso vai depender da quantidade de projetos que o escritório produz. Creio que a melhor formação desse especialista vem da diversidade de problemas que ele enfrenta no escritório. Como hoje a velocidade de projetos é maior, então o calculista em formação vai vivenciar muitos casos especiais em um tempo menor. Difícil dizer, mas talvez ele esteja pronto em cinco ou seis anos. Também é importante: por melhor que tenha sido o curso na graduação, o calculista vai estudar sempre. Os livros, principalmente os antigos, trazem vivências importantíssimas que ajudam a dar firmeza nos conceitos aplicados nos projetos do dia a dia. Não tem jeito, precisa ler muito.

Entrevistado
Engenheiro Civil Tales Pedro de Souza, com 32 anos de experiência em cálculo de estruturas. Sócio-fundador da Benedictis Engenharia e da S4 Sistemas de Engenharia

Contatos
calculista@benedictis.com.br
www.s4sistemas.com.br
talesps@terra.com.br

Crédito Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos MTB 2330
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