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Confiança vira exigência do mercado

Gestão 2 de fevereiro de 2010

Cultura autoritária, com alta concentração de poder, começa a tornar-se um traço de rejeição diante do avanço da gestão por lealdade

Marco Tulio Zanini: “O Brasil já possui ilhas de excelência em gestão por confiança.”

Conquistar confiança nem sempre é fácil. Para obter credibilidade é necessário ser convincente, objetivo e consciente das próprias ações. Se nas relações interpessoais isso se torna difícil, o que dirá dentro de uma empresa? A organização, além de possuir colaboradores, produtos e serviços, tem também vínculo com investidores, parceiros, acionistas e outra infinidade de interlocutores. Saber agregar o valor da confiança para toda essa cadeia é essencial para a estabilidade da companhia e sua marca. É isso que prega o especialista em gestão por confiança, Marco Tulio Zanini, autor do livro Confiança – O Principal Ativo Intangível de uma Empresa, e que na entrevista a seguir dá dicas de como dar e receber confiança. Confira:

O modelo de gestão que as empresas adotavam até pouco tempo atrás era a supervisão direta e o controle hierárquico dos colaboradores. Hoje, a gestão por confiança já conseguiu substituir esse modelo ou ela ainda é pouco usada nas corporações?
O modelo tradicional, baseado em controle formal com supervisão direta, é ainda a realidade em grande parte das empresas. No entanto, em algumas indústrias, este modelo já não apresenta a mesma eficiência que apresentou no passado. E isso se deve basicamente ao aumento da demanda pelo trabalho mais especializado, com a aplicação mais intensiva do conhecimento no processo produtivo. Empresas que operam com processos produtivos, que demandam alta especialização da mão-de-obra, e contratos de trabalho de longo prazo, têm maior necessidade de desenvolver relações mais consensuais e cooperativas, baseadas em confiança.

Não é meio utópico imaginar que uma empresa será gerida apenas pelo sistema de confiança mútua, sem que haja um controle da produção?
Certamente que, mesmo quando falamos em sistemas produtivos onde a confiança é um elemento de extrema relevância, há a necessidade de algum controle dos processos e normas. Não se pode argumentar em direção a sistemas produtivos que sejam geridos unicamente pelas relações de confiança, com a ausência total de controles. Normas e regras, como as regras de segurança, por exemplo, são críticas em algumas indústrias de alto risco, e quando bem empregadas geram confiabilidade e reforçam as relações de confiança. A emergência do tema confiança, no entanto, deve-se ao extremo oposto. Uma grande parte dos sistemas de produção no Brasil carece de relações de confiança, ou seja, são extremamente ineficientes porque há o abuso do emprego do controle direto.

Os colaboradores já estão preparados para aderir à gestão por confiança ou ainda precisam ter a tutela do gerente, meio como a de um pai sobre um filho?
No Brasil convivemos com um ambiente empresarial extremamente diversificado quanto à qualidade da gestão. Em geral, somos mais ineficientes do que os países que apresentam culturas igualitárias, onde os indivíduos percebem-se como iguais e os problemas que surgem em todos os níveis são tratados sob esta lógica da igualdade. Desperdiçamos muito nosso potencial humano numa cultura autoritária de alta concentração de poder. A premissa de que os colaboradores precisam da tutela do gerente, numa lógica paternalista, nasce desta cultura de desigualdade onde se assume que os indivíduos hierarquicamente superiores devem dirigir os demais que estão sob sua direção. Assumimos que aqueles que são hierarquicamente inferiores precisam de instrução, regras e treinamento para apresentarem um bom desempenho. Esta crença já é um traço de uma cultura que consegue resultados muito negativos quanto à capacidade de gerar autonomia na base.

O quanto o modelo de gestão por confiança pode representar em economia para as empresas?
Não podemos quantificar exatamente, pois varia de acordo com o valor que se pretende entregar ao mercado. Mas um modelo de gestão baseado em confiança pode representar verdadeiramente uma revolução na criação e entrega de valor ao mercado. Por definição, e observação prática, as sociedades de alta confiança são mais eficientes e capazes de gerarem sustentabilidade quando comparadas às sociedades de baixa confiança. Segundo pesquisas do Banco Mundial, a economia das nações tem nos mostrado isso. Países que apresentam maiores níveis de confiança tendem à riqueza. Ao contrário, países com menores níveis de confiança tendem à pobreza. Nas empresas, guardando-se às proporções, a mesma lógica se aplica. Empresas sustentáveis são aquelas que compartilham valores e possuem uma boa governança – base para a manutenção das relações de confiança entre os diversos públicos de interesse.

Como se implanta uma gestão por confiança ou a DPC (Direção por Confiança) numa empresa?
A implantação de um novo modelo de gestão baseado em confiança demanda um diagnóstico e uma análise particular em cada caso, como base para um processo de mudança bem estruturado, levando-se em consideração o ambiente industrial e a cultura de um país e de uma organização. Em geral, busca-se criar consistência, integridade e transparência na gestão, tratando de mecanismos formais e informais. É importante, no entanto, que a implantação deste modelo esteja associada a uma estratégia de entrega de valor ao mercado, com o apoio do conselho e encabeçado pela alta administração da empresa, ou seja, esta decisão cabe a estes sujeitos em primeiro lugar.

A gestão por confiança funciona num ambiente onde haja colaboradores descontentes?
Em qualquer empresa sempre haverá colaboradores descontentes. No entanto, quando este descontentamento se torna uma epidemia organizacional, gerar confiança pode ser uma tarefa extremamente penosa. O importante é analisamos o porquê do descontentamento e tratar a sua causa. É ai que começamos a gerar confiança.

O que uma empresa deve fazer se quiser mudar seu modelo de gestão baseado no autoritarismo e no paternalismo para a gestão por confiança?
Em geral, deverá criar um sistema que reconheça e premie o mérito e o bom desempenho, definindo regras claras, com transparência. Deve estar claro para todos dentro da empresa como as pessoas estão sendo promovidas, remuneradas e consideradas no plano de sucessão da empresa. É preciso criar mecanismos que possam inibir as relações baseadas em lealdade pessoal, e incentivar relações profissionais baseadas no mérito. Deve estar claro o que se espera de cada indivíduo, e como este é avaliado por seus superiores. Além disso, é necessário que as pessoas possam compartilhar valores e práticas que apontem para esta direção, contrários à manutenção de práticas de abuso de poder e favoritismos.

O mundo mergulhou, entre 2008 e 2009, numa crise global desencadeada pela falta de confiança. Como as corporações passarão a encarar o quesito confiança daqui por diante?
Certamente, com maior seriedade. O resgate da confiança é sempre mais penoso e custoso para as organizações. No entanto, a confiança deverá emergir de novos modelos e políticas de governança corporativa que assegurem a boa conduta dos indivíduos nos negócios de interesse coletivo. É necessário que este novo modelo de governança comunique maior credibilidade, assegurando ainda mais a boa conduta daqueles que possuem obrigações e responsabilidades fiduciárias com seus diversos públicos. Esta credibilidade deve assegurar o restabelecimento das relações de confiança no mercado.

Há um país em que o modelo de gestão por confiança esteja mais arraigado do que em outros lugares? Países como Noruega, Finlândia e Suécia são economias fortes, e modelos de sociedades de alta confiança com alta percepção de igualdade. São exemplos da compatibilidade entre alta produtividade e alta qualidade de vida. A base desta confiança institucionalizada está na percepção de igualdade entre os indivíduos, um valor presente na celebração de contratos, decisões e criação de políticas sociais.

E no Brasil, como anda a implantação deste modelo?
Temos ilhas de excelência que apresentam soluções extremante autênticas e inovadores em gestão. Mas ainda são poucos os exemplos. No geral, no Brasil, somos extremamente ineficientes para implementarmos modelos de gestão baseados em confiança. Isso porque admiramos muito a confiança como um valor, mas em nossas práticas cotidianas acabamos assumindo, de maneira informal, as características de uma sociedade de desiguais, com baixa confiança. Práticas de concentração de poder, falta de autonomia e dificuldades de se estabelecer a noção de mérito são frequentes. No entanto, os exemplos de modelos de gestão baseado em relações de confiança são crescentes. É necessário dedicar tempo para a construção de um modelo de gestão estratégica de pessoas alinhadas a uma entrega de valor consistente ao mercado, onde a confiança se evidencie como uma competência distinta, e um diferencial competitivo.

Email do entrevistado: Assessoria de imprensa: borgeslivia@hotmail.com

Vogg Branded Content – Jornalista responsável Altair Santos MTB 2330



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