Concorrência predatória se combate com estratégia

Felipe Magrim: competição predatória se combate com investimento em produtividade e qualificação.

Concorrência predatória se combate com estratégia

Concorrência predatória se combate com estratégia 1021 1024 Cimento Itambé

Escassez de mão de obra leva empresas a assediarem profissionais de outras Companhias. O antídoto está em novos métodos de recrutamento

Por: Altair Santos

Apesar de todos os esforços – inclusive governamentais – para qualificar os trabalhadores, a escassez de mão de obra ainda é um dos principais entraves para as corporações brasileiras. A mais recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre o tema, revela que, para 49% das grandes empresas, este é hoje o principal gargalo. Entre estabelecimentos de pequeno e médio portes, o percentual é ainda maior: 56,5% e 57% revelam, respectivamente, dificuldades em encontrar mão de obra qualificada.

Felipe Magrim: competição predatória se combate com investimento em produtividade e qualificação.

O cenário tem levado à concorrência predatória pelos melhores profissionais. Em alguns casos, umas assediando trabalhadores das outras, usando o salário como principal argumento. Entre os setores mais atingidos por essa escassez está a construção civil. Há empresas contratando o serviço de headhunters para buscar, principalmente, engenheiros. Mas o problema não se limita a trabalhadores de nível superior. É cada vez mais raro também encontrar pessoal de nível médio bem treinado e à disposição no mercado.

Entre os organismos dedicados a combater a escassez de mão de obra no país está a Amcham-Brasil (Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos). Segundo Felipe Magrim, gerente de relações governamentais da Amcham-Brasil, há mecanismos que podem prevenir a competição predatória e estimular as empresas a prospectar talentos e manter os bons profissionais em seus quadros. “Apesar da carência por mão de obra qualificada, a Amcham-Brasil procura estimular a competitividade saúdavel”, diz. Saiba mais na entrevista a seguir:

Escassez de mão de obra, principalmente nos setores com alta demanda tecnológica, é um dos maiores entraves para as empresas brasileiras?
A leitura que se faz é que as empresas precisam de um gerenciamento mais eficiente da mão de obra, principalmente no setor de infraestrutura. Nos próximos anos, certamente continuará havendo uma demanda crescente por profissionais qualificados e os empresários brasileiros estão começando a se preocupar com isso. No segundo semestre de 2012, a Amcham-Brasil realizou o Business RoundUp e a principal tendência apontada como solução para os possíveis entraves causados pela escassez da mão de obra foi o investimento em produtividade e qualificação.

Nesse ambiente de escassez de mão de obra qualificada, principalmente na construção civil, a concorrência predatória é um risco?
Podemos identificar um foco de investimento muito grande na construção civil, combinada com carência por mão de obra qualificada. A Amcham-Brasil orienta os empresários a procurar estimular a competitividade e a ficar atento aos incentivos públicos e oportunidades para o setor. De acordo com o Sinduscon-SP, foram contratados cerca de 3,4 milhões de funcionários no ano passado e o nível de desemprego chegou a 2% no setor. Os dados indicam que houve uma saturação da mão de obra e, por isso, é necessário aumentar a produtividade e ficar preparado para lidar com a concorrência.

Quando uma empresa utiliza da concorrência predatória para atrair profissionais, ela não corre o risco de gerar inflação salarial no setor em que atua?
Os empresários estão preocupados em evitar a inflação salarial e um consequente descontrole no orçamento da empresa para os funcionários. Por isso, apesar da forte concorrência, o plano de negócios deve estar focado em equilibrar de maneira adequada os salários oferecidos tanto aos gestores quanto aos novos talentos. Em relação ao setor da construção civil, tivemos a informação do Sinduscon-SP de que a legislação trabalhista pode não ser completamente favorável aos incentivos à competitividade.

A concorrência predatória por mão de obra pode conturbar o ambiente de trabalho dentro da empresa que a pratica e desencadear um alto turnover?
Essa é uma tendência apontada constantemente. Para evitar a rotatividade constante de funcionários, e aproveitar melhor os talentos, as empresas estão modificando a estrutura de gestão de pessoas, dando um tratamento mais personalizado. Além disso, é preciso preservar um contato mais próximo com a chamada “geração y”, caracterizada por jovens que procuram uma ascensão rápida na carreira e preferem um ambiente dinâmico com relacionamento flexível e envolvimento maior com as plataformas digitais.

Qual é a forma saudável de se competir por mão de obra qualificada?
Para identificar a mão de obra qualificada é importante investir em programas de recrutamento que possam absorver os profissionais capacitados não somente no quesito técnico, mas também na relação interpessoal. De acordo com especialistas que são consultados durante comitês realizados pela Amcham-Brasil, além da excelência na área em que trabalha é necessário que o profissional tenha um bom relacionamento com a equipe e consiga se desenvolver no ambiente corporativo. Outro elemento importante é reconhecer os funcionários que mais se destacam. A valorização dos talentos evita que eles busquem novas oportunidades de trabalho e levem o aprendizado e a experiência deles para empresas concorrentes.

A contratação de headhunters, por parte das empresas, ajuda a combater a concorrência predatória por mão de obra?
Além da contratação de headhunters, é importante que a empresa tenha ferramentas que possam dar suporte a esses profissionais, que podem ter uma visão mais direcionada para a busca por novos talentos. Durante os nossos comitês, consultores e headhunters são convidados para falar com os empresários sobre a necessidade de deixar mais claro aos candidatos todos os benefícios e as exigências para ocupar as vagas oferecidas pela empresa. Para combater a concorrência, os especialistas apontam que é necessário, principalmente, alinhar as expectativas da empresa aos do funcionário. Atualmente, as Companhias são orientadas a buscar uma comunicação mais transparente, que incentive cada profissional a ter um desempenho que seja compatível com a política de cada departamento.

No caso do profissional que é o alvo da concorrência predatória entre empresas, como ele deve se comportar?
As empresas estão sendo estimuladas a estabelecer um ambiente de trabalho que possa reconhecer e permitir o crescimento do profissional dentro da empresa. Dessa forma, ele percebe que continuar dentro da Companhia pode ser uma escolha favorável a longo prazo, pois será possível crescer e adquirir novas experiências. Por isso, a governança corporativa deve estar focada no aproveitamento e nos interesses de cada talento. Segundo a opinião dos consultores que palestram em eventos e comitês da Amcham, existem muitos mecanismos para permitir um maior desenvolvimento do profissional, que vão desde as remunerações variáveis (bônus, metas e premiações) a um tratamento personalizado e individual do trabalho. Portanto, a forma como o profissional se comporta ao receber uma proposta da concorrência deve ser uma preocupação da empresa, que deve evitar a evasão da sua mão de obra produtiva.

A concorrência predatória por mão de obra inibe a descoberta de novos talentos?
A procura por talentos, que tenham maior qualificação e experiência, torna-se ainda mais importante e crucial para a empresa quando existe uma forte competitividade no setor em que atua. Apesar da concorrência na disputa por esses profissionais, a política da empresa deve ter como prioridade programas de recrutamento bem elaborados, possibilitar a experiência como trainee e prestar atenção nas práticas que estão sendo difundidas no mercado. Durante comitês de gestão de pessoas, que a Amcham-Brasil organiza mensalmente, pudemos ouvir de consultores a importância de selecionar os talentos e, mais tarde, oferecer cursos e treinamentos periódicos. A qualificação continuada do funcionário dentro da empresa é a principal justificativa para a criação de universidades corporativas e avaliações do desempenho no ambiente de trabalho. Alternativas como essas colaboram para que os talentos de hoje se tornem líderes com um olhar mais aguçado para descobrir profissionais capacitados e que se enquadrem no perfil da empresa.

Entrevistado
Felipe Magrim, gerente de relações governamentais da Amcham-Brasil (Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos)
Currículo
– Felipe Magrim é graduado em relações internacionais pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e em Ciências Sociais pela PUC-SP. Tem especialização em políticas públicas pela Escola de Governo de São Paulo
– Ocupa o cargo de gerente de relações governamentais da Amcham-Brasil desde abril de 2012
– O departamento atua em áreas como tributação e questões regulamentares, além de identificar problemas enfrentados pelo setor privado nas propostas de regulação de mercado e no desenvolvimento de políticas públicas
Contato: felipe.magrim@amchambrasil.com.br
Créditos foto: Divulgação

Jornalista responsável: Altair Santos – MTB 2330
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